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golfinhos no espaço
:/
x.
Nasci num 22
E num 22, na vigésima segunda copa do mundo, me encontro (ou será que me encontrei?).
É interessante pensar em quanto Doutor Estranho há num mundo de tanta Feiticeira Escarlate. Todos duplos num multiverso.
Só o que resta é amar.
A si mesmo, com alguma sorte, com esperança de que o inverso, aquele que não sou eu, (ou que talvez seja ela), também se ame a si, e encontre a felicidade terna.
Rumores de que havia um homem na estrada que se chamava Raimundo. Ávido, rumava por aí, de lado a lado, rangendo os dentes, o seu cavalo. Desprovido de tantas coisas, como raiva ou questionamento, promovia, em trote despreocupado, o pó que impregnava todo o seu cavaleiro. Quando o bigodudo moço, num estalo, se põe a pensar no que era e do que era feito o destino. Mas, desde já, não era mais ele.
Antes de conhecer qualquer coisa, parte-se da certeza de que não se sabe se existe um destino. Esse ponto é problemático. De muitas abordagens que se pode aceitar, há algumas que causam intriga. Porque essa ideia do lugar destinado a um fim específico não tem parâmetros. Vão dizer que o destino é um só. Mas é fulcral a questão: É um caminho só ou permite variações?
Assumimos que o desígnio seja a chegada ao ponto B saindo do ponto A. Mas o que acontece com todo o resto? É sempre do ponto A ao ponto B? Um só? Sem variação? Assumindo também que seja um problema adquirir a ideia que se universaliza nesse ponto, se faz necessário que se coloque em jogo o caso particular.
Assumimos a regra de se chegar a um lugar pré-determinado, havendo um ponto de partida, tomando-a como imutável. Assim, pelo costume, chamamos isso de “Destino”. Entretanto, o estranhamento acontece quando suspeitamos da indeterminação do lugar de chegada se for considerada a possibilidade de particularização dessa mesma regra, cuja qual, afirmamos anteriormente, é uma só.
Com efeito, posso sair do ponto V e chegar ao ponto L. Antes que a mente dê nó, explica-se, que o abecedário deu a volta. A regra permanece a mesma, entretanto, essa foi uma particularização (quando não, uma variável), da regra que não mudou. (Aqui, o navio de Teseu está sozinho na floresta, e não há ninguém lá). Mas que droga! E todo resto?
É Destino o percorrer das outras letras também?
E se, para chegar ao ponto A, saindo do ponto H eu precise percorrer também a letra O? Mas, e se o descaminho do caminho me forçasse a ir ao encontro da letra R, para que então eu possa ter cumprido meu Destino de chegar na letra A? E só depois, no fim, depois de tudo, eu tenha percebido que minha trilha me levou ao caminho da H.O.R.A? Se tivesse parado em outros pontos, teria eu cumprido essa façanha? Teria, ainda assim, sido um destino; o meu destino? Teria, no fim, cumprido a H.O.R.A? Ou teria feito algo incompreensível como H.O.R.T.A? Seria o Destino um papel, único, puro, santo e quase virginal, no qual se talha uma única vez? Ou, não, seria antes, o escárnio de um palimpsesto?
Chegamos aqui a uma descoberta sobre essa caminhada, portanto: Não sabemos se o destino é um só caminho ou ele é variável. Se ele é um só, como se escrevesse em cima de uma fôrma, já moldada pelas forças invisíveis do destino, ou se ele é um papel fácilmente rasurável que, sagazmente, se reescreve para sempre fazer caber a sua história nas bordas limítrofes da folha, para se afirmar que nada há fora da história. De um modo que se não há relato, não há história, e sem história não há destino; mas só há a história e só há o destino quando ele cabe no rasurável papel da folha que define a existência de todas as coisas: desde a história até as letras e o destino.
Tão pouco sabemos, também, se ele tem uma única direção, sem permitir escolhas. Ou as escolhas moldam o destino enquanto se caminha “recalculando a rota”. No fim de todas as respostas, só temos perguntas.
Outra delas é a seguinte: O Destino é rastreável? Se há rastros de destinos, eles são rastros destinados a serem rastreáveis, ou não, antes do destino deixar a deriva seus rastros para serem apreciados, eles são escondidos? E, se são escondidos, é possível conhecê-los? Ou o pior: porque não o seriam?
E se não existisse destino? E se existisse tão somente interpretações dos rastros de desígnios que não estão escondidos e nem tem propósito destinado à eles? Podemos conhecê-los? E se há interpretações, há também interpretadores? Mas e se não haver destino nem interpretações e apenas vontades? Chegamos aqui a uma descoberta sobre essa caminhada, portanto: no fim de todas as respostas, só temos perguntas.
O pó, impregnado no bigode, também não responde. Menos, o equino. E já não se pode projetar esperanças no Raimundo, uma vez que já não o é mais. Quando Raimundo encontrou a sorte e a sorte encontrou Raimundo, nos foi dito, que não era o destino deles se encontrarem. Mas eles o fizeram. Talvez por teimosia, talvez por acaso, talvez até por outros motivos, mas assim o fizeram e construíram a sua história. Ela navegou nas possibilidades do Destino e se fez presente marcando uma trajetória. E dela foram retiradas muitas pegadas que ainda viriam a ser fragmentos históricos que seriam apenas os rastros de um destino.
Nos foi contado também, que não era o destino da sorte encontrar Raimundo e vice e versa. O que sabemos foi que ambos se tornaram parte da história um do outro, com ou sem sorte. Eles andaram juntos e deixaram suas marcas. Haviam não apenas pegadas na areia, como também, marcas históricas que se tornaram, anos mais tarde, em rastros de destino. Seus rastros eram rastreáveis e por isso, de algum modo, alguém pôde juntar esses pedaços rasurados nas folhas de uma carta (de um conto, de um livro, de uma nota, de um bilhete ou de uma fábula), e com perplexidade foi revelada a história do bigode e da bonança. Já era o fim desde o princípio. Mas esta foi apenas a interpretação do intérprete do destino.
Acompanhamos, juntos, a sorte e o Raimundo. Todos, com dificuldades interpretativas, não poderíamos ler nas cartas tais rastros que o Destino têm. Não sabíamos e nem poderíamos saber o que nos desígnios se escondia. Não sabíamos e nem poderíamos saber deles pois não nos ensinaram a ler o acaso. Éramos apenas uma canção para embalar marujos. Não sabíamos, eu sei, que o Tempo é ainda pior.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
Raimundo...
Se eu fosse mais mundo,
seria justo
odiar o Amor
mais profundo?
Por mais que fosse profano,
era, ainda, humano.
E, se fosse ainda mais insano,
me diga, Raimundo:
O que faria eu, nauseabundo,
Com todo o místico engano?
E aí,
Bigodudo?
O que eu faço com esses olhos
que não perguntam nada?
Faço, ainda, uma rima?
Procuro, ainda, alguma solução?
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
Raimundo...
O que se esconde nas tuas preces?
Onde foram parar as tuas rimas?
As tuas oito faces,
e as tuas pernas?
Esqueci o fio da meada.
Onde é que ela estava?
Previu?
aquele gosto precoce,
um óbice,
da razão mais vil?
Deve ter voltado,
espero,
À puta que lhe pariu.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
Raimundo...
Se eu fosse mais mundo,
seria justo
odiar o Amor
de modo mais profundo?
Foda-se,
ou,
que o valha...
Naquele fio de navalha,
cega,
que não acutila nada,
chora, justificando,
cortando o gerúndio
do teu pulmão,
tosquiando,
a bosta
do meu coração.
Eu não devia te dizer...
Mas esse beck...
E, esse conhaque,
botam mais desejo
bem no fundo do rabo.
E, virado pra Lua, o gracejo.
E, esse maldito Diabo,
no comovido toque,
Não quer rima,
ou beijo.
E o que resta
é só,
além de lágrima,
sem festa,
o muleque:
Aquele furor ilusório,
fulgurante,
do
pechisbeque.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...
Raimundo...
Me salva....
Me salva, Raimundo,
Me salva.
N'algum lugar do tempo algum anjo profetizava: Cuida! Cuida que a vida é ávida pelo retorno da própria vida na mesma vida em que tu vives.
Fora essa uma época em que aprendia a ler e falar, mas não ouvir.
Essa insanidade me perseguiu nos dias vindouros. Andava na rua e conheci alguém que bebia até gasolina, como eu. Tinha vômito na roupa, lágrimas nos olhos, lembranças solitárias, experiência sobre a vida, as coisas em geral e de coração vazio. Tinha vontade própria, conseguia andar por si, possuía a si e era ávida por viver. Não aceitava o lugar que a vida havia lhe imposto. Queria viver, queria amor, queria tanto.... O acolhimento oferecido fora incondicional até ficar de pé.
Mas a vida lhe tornou mais forte depois que partiu. Depois de adquirir tanto, mais do que imaginava.
Hoje, me encontro no fio da calçada comigo mesmo, sem esperança. Com o tempo, depois de aprender a ver, depois de aprender a ler, depois de aprender a falar, depois de tudo, ouvi. Mas só no fim, depois de tudo.
Hoje, e só hoje, percebi. A vida, na qual tentei ter paciência e ter controle sobre o que sentia, se fez implacável e retornou. Mas seu regresso se fez ao inverso. Colocou aquele que estava caído em pé e aquele que era a pé, no chão... Conversando com os ratos, comendo as migalhas dos pombos, refém do retorno, golfado por aquela mesma vida, ávida por regresso, no lugar do outro.
Assumi seu lugar e vi a vida se repetir.
Hoje, e só hoje, sôfrego e derrubado, sem admissão de rastejo, gatinho naquela mesma calçada, arredio, como todos que estão no mesmo lugar, em lamento. Agora percebo, sempre tem alguém lá. Se a vida derruba quem fica em pé, ela também levanta quem anda de quatro. Se existe esperança? impossível determinar.
À vida, ao lamento, às inebriantes sensações, à experiência, ao amor, ao vento e ao vinho: Um estilhaçado corpo humano ora, por hora, pela alienação fiduciária do bem querer.
São oito horas da noite e o sol ainda não despencou do céu. Continua com seu trabalho infinito na órbita da terra, enquanto, de cabeça baixa, aquela criatura vê no canto da folha amarelada e carcomida a inscrição colorida do seu número de série. Ainda não anoiteceu, mas está quase. Ainda não comeu, mas já está quase.
Um berro seguido de um nervoso abrir de portas é o sinal de sair de casa e ir para a escola. Acordar todos os dias. Acordar e nascer de novo. Todos os malditos dias acordando e trocando de roupa; todos os malditos dias acordando e limpando aquela ramela amarela dos olhos, pois houve choro nas noites anteriores. E não sabemos quantas chances mais serão precisas até que ramelas amarelas sejam descontadas nas limpas orelhas de um travesseiro encardido que já não suporta mais o seu trabalho de todas as noites. Cada dia uma ramela diferente.
Ele vai à escola e quando volta já não é mais o mesmo. Percebe pelo reflexo da chave que no seu rosto há uma penumbra negra. Seu movimento é apressado e a sua expressão é severa. Se questiona porque na vida somos igual peças de xadrez.
foda...
a porra toda quebrada ali dentro de mim. Ter que juntar os cacos e o que der pra levar, se leva. O que se vai, se vai...
E a saudade é, sozinha, um martelo derrubado na cabeça tombada de pensamentos infindáveis, plenos daquela água exprimida nos olhos, contraídos pelas pálpebras cheias de tristeza. Carrascos da boca, que não transportam mais nenhum som, harmonia ou paz. A única coisa que exprimem as sonoras cordas é a melodia das lamurias. Não, não são palavras. Elas sumiram. Como tudo mais.
foda
a porra toda quebrada ali dentro de mim. Ter que juntar os cacos com as próprias mãos, frágeis, inaptas. E o que der pra levar, tu leva. O que se vai... se esvai... do braço amoroso ao abraço gentil, não há mais. Saudade de ter, conter e contar.
foda
Porto Alegre. Vigésimo
primeiro dia do mês de Novembro. 1985. 15 horas e 27 minutos. 32 Graus.
A cidade
está muito agitada, mas age como se nada estivesse acontecendo. Os trilhos do
trem fazem as estruturas do edifício tremer. O cheiro de combustível queimando
no ar pelos automóveis e fabricas, é levado para dentro do apartamento com a
força do vento que atravessa as cortinas e invade a sala como um intruso. A
sala não é confortável. O ventilador esta quebrado. A Geladeira também (não há
nada lá). Muitas pessoas no local. Calor.
Porto Alegre. Vigésimo
dia do mês de Novembro. 1985. 11 horas e 23 minutos. 26 Graus.
Fernanda
como sempre, após almoçar naquele mesmo restaurante, que é localizado abaixo do
seu prédio e na mesma hora como de costume, variando apenas no cardápio, voltara
sua atenção ao noticiário da TV para saber a previsão do tempo. Já ele, não se
importa com as informações que passam. Observa Fernanda com reprovação por não
aceitar que se preocupe tanto com a previsão do tempo. Sua verdadeira
indignação é por nunca concordar, no seu ponto de vista, que Fernanda viva,
infalivelmente, controlando de tudo que é relativo àquilo que, ironicamente,
não se pode controlar. O tempo.
Porto Alegre. Vigésimo
dia do mês de Novembro. 1985. 21 horas e 12 minutos. 18 Graus. Atrito.
A
discussão acontece após Fernanda reclamar que ele é desleixado e perde muito
tempo à toa. Falam em voz alta. Ele já esta cansado das mesmas ofensas e dessa
vez resolve desabafar. Ela nunca havia percebido que estava em uma cela mental
que cronometrava cada ato de sua vida. Inflexível, sem perda de tempo, começo e
fim pré-estabelecidos por um tempo exato. Acabou de ver em si que não estava
fazendo bem para ela e não tinha importância nenhuma saber quanto tempo levava
para tomar banho, se haveria neblina ou cerração, cinco minutos para escovar os
dentes, três minutos para os sapatos, doze para o cabelo ou dez segundos para
acordar. Cada um deu seu argumento. Os visinhos escutavam atentos com o copo na
parede. Ele jura que faria algo com
relação a isso. Ela vai para o quarto dizendo estar sem tempo para discussão.
No outro dia todos fazem as mesmas coisas. Ou não.
Porto Alegre. Vigésimo
primeiro dia do mês de Novembro. 1985. 15 horas e 03 minutos. 31 Graus.
O telefone
do escritório de contabilidade toca. Fernanda está. A polícia pede para que ela
compareça no seu apartamento. Um cadáver precisa da sua identificação. Em
pânico, pegou um táxi, opala, duas portas. A
placa FTA8493, cor cáqui. A vinte e quatro minutos do
local.
Porto Alegre. Dia. Mês.
Ano. Hora. 32 Graus.
A luz do sol reveza com os flashes das câmeras
a iluminação da sala. O cheiro do combustível agora invade o apartamento e
colide nos uniformes suados pelo calor. Que por sua vez entoa o aroma do sangue
na madeira. Ao canto está o sofá velho e, ao lado, a arma do crime. Ela chegou
e ficou sem ar. O coração pulsava na altura da garganta quando viu ele e o que
acabara de fazer com um martelo. Cumpriu com sua promessa. O relógio estava
esquartejado e sem vida.
Foi preso em flagrante matando tempo.
O poder de mudar é fraco
O dom de acreditar é morto
O junco de sentir é pobre
"ele' é o snob
A crença é salvação
Do horror,
Do mundo
Do espírito
No próprio sangue
Da coragem
Junta meu corpo de angústias
Jura promessas frias
Gélidas cores: Alegrias?
Nada!
Apenas sepulcro do poente.
Aquele Sol,
Que ostentaras o doente,
Inânime,
Não agrada.
Este é o jazigo do medo!
Tu! Morte soberana,
Voltas para teu relego
Pois, minh'alma, não afanas.
Acolhe este corpo aflito
Que sofre, pálido, eu Grito:
– Oh! Luar, se tão bonito,
Por que me acorrenta?
À noite, meu amor, é tão
ingrata...
Teu calor mentiroso me
maltrata
Portanto em ti, minha dor,
que se alimenta.
Minha dor se alimenta em ti,
portanto.
Minha dor, portanto, em ti que sê.
Alimenta.
A rima, dor;
A rancorosa,
Abandona do meu peito.
... golfinhos no espaço :/