O duplo

x. 

Nasci num 22

E num 22, na vigésima segunda copa do mundo, me encontro (ou será que me encontrei?).

É interessante pensar em quanto Doutor Estranho há num mundo de tanta Feiticeira Escarlate. Todos duplos num multiverso. 

Só o que resta é amar. 

A si mesmo, com alguma sorte, com esperança de que o inverso, aquele que não sou eu, (ou que talvez seja ela), também se ame a si, e encontre a felicidade terna.


A lenda



                                                                                                  “A lenda geralmente é criada pela maioria do povo da aldeia, gente equilibrada.
                                                                                               O livro geralmente é escrito pelo único homem da aldeia que é louco.” 
Ariadne

Indubitavelmente, foi lá em Mont Blan'c, ou em Aparecida. Apesar disso, confesso, sinto em meu coração que uma parte do todo não veio, tão somente, em absoluto, da parte dela, senão também, daquele que veio de Tiradentes e depois foi para o Espírito Santo; ou Goiás, não tenho certeza, infelizmente.

                                                                    “Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então.”
Heráclitão

Com uma precisão bastante rasurada, como no mundo dos espelhos e das Maravilhas, é que se pôde vir a afirmar que os caminhos para a chegada dessa ideia vieram no fim, só no fim, depois de tudo. Talvez oriundos de alguma história, fábula, conto ou livro; disso eu sei, felizmente.

"...quando eu me aceito como eu sou, então eu mudo."
Demócrites

Mas é genuíno se deixar enganar de que a premissa toda veio de mim mesmo. Ou que fora, todavia, num sonho impecavelmente verdadeiro que emergiu e que posso afirmar, categoricamente, que não sei de onde surgiu esse pensamento.

                                                                                  “Não é que eu goste de complicar as coisas, elas é que gostam de ser complicadas comigo.”
Borges.

Rumores de que havia um homem na estrada que se chamava Raimundo. Ávido, rumava por aí, de lado a lado, rangendo os dentes, o seu cavalo. Desprovido de tantas coisas, como raiva ou questionamento, promovia, em trote despreocupado, o pó que impregnava todo o seu cavaleiro. Quando o bigodudo moço, num estalo, se põe a pensar no que era e do que era feito o destino. Mas, desde já, não era mais ele.

Antes de conhecer qualquer coisa, parte-se da certeza de que não se sabe se existe um destino. Esse ponto é problemático. De muitas abordagens que se pode aceitar, há algumas que causam intriga. Porque essa ideia do lugar destinado a um fim específico não tem parâmetros. Vão dizer que o destino é um só. Mas é fulcral a questão: É um caminho só ou permite variações?


Assumimos que o desígnio seja a chegada ao ponto B saindo do ponto A. Mas o que acontece com todo o resto? É sempre do ponto A ao ponto B? Um só? Sem variação? Assumindo também que seja um problema adquirir a ideia que se universaliza nesse ponto, se faz necessário que se coloque em jogo o caso particular. 

Assumimos a regra de se chegar a um lugar pré-determinado, havendo um ponto de partida, tomando-a como imutável. Assim, pelo costume, chamamos isso de “Destino”. Entretanto, o estranhamento acontece quando suspeitamos da indeterminação do lugar de chegada se for considerada a possibilidade de particularização dessa mesma regra, cuja qual, afirmamos anteriormente, é uma só. 

Com efeito, posso sair do ponto V e chegar ao ponto L. Antes que a mente dê nó, explica-se, que o abecedário deu a volta. A regra permanece a mesma, entretanto, essa foi uma particularização (quando não, uma variável), da regra que não mudou. (Aqui, o navio de Teseu está sozinho na floresta, e não há ninguém lá). Mas que droga! E todo resto?


É Destino o percorrer das outras letras também?

E se, para chegar ao ponto A, saindo do ponto H eu precise percorrer também a letra O? Mas, e se o descaminho do caminho me forçasse a ir ao encontro da letra R, para que então eu possa ter cumprido meu Destino de chegar na letra A? E só depois, no fim, depois de tudo, eu tenha percebido que minha trilha me levou ao caminho da H.O.R.A? Se tivesse parado em outros pontos, teria eu cumprido essa façanha? Teria, ainda assim, sido um destino; o meu destino? Teria, no fim, cumprido a H.O.R.A? Ou teria feito algo incompreensível como H.O.R.T.A? Seria o Destino um papel, único, puro, santo e quase virginal, no qual se talha uma única vez? Ou, não, seria antes, o escárnio de um palimpsesto?


Chegamos aqui a uma descoberta sobre essa caminhada, portanto: Não sabemos se o destino é um só caminho ou ele é variável. Se ele é um só, como se escrevesse em cima de uma fôrma, já moldada pelas forças invisíveis do destino, ou se ele é um papel fácilmente rasurável que, sagazmente, se reescreve para sempre fazer caber a sua história nas bordas limítrofes da folha, para se afirmar que nada há fora da história. De um modo que se não há relato, não há história, e sem história não há destino; mas só há a história e só há o destino quando ele cabe no rasurável papel da folha que define a existência de todas as coisas: desde a história até as letras e o destino.

Tão pouco sabemos, também, se ele tem uma única direção, sem permitir escolhas. Ou as escolhas moldam o destino enquanto se caminha “recalculando a rota”. No fim de todas as respostas, só temos perguntas. 

Outra delas é a seguinte: O Destino é rastreável? Se há rastros de destinos, eles são rastros destinados a serem  rastreáveis, ou não, antes do destino deixar a deriva seus rastros para serem apreciados, eles são escondidos? E, se são escondidos, é possível conhecê-los? Ou o pior: porque não o seriam?

E se não existisse destino? E se existisse tão somente interpretações dos rastros de desígnios que não estão escondidos e nem tem propósito destinado à eles? Podemos conhecê-los? E se há interpretações, há também interpretadores? Mas e se não haver destino nem interpretações e apenas vontades? Chegamos aqui a uma descoberta sobre essa caminhada, portanto: no fim de todas as respostas, só temos perguntas. 


O pó, impregnado no bigode, também não responde. Menos, o equino. E já não se pode projetar esperanças no Raimundo, uma vez que já não o é mais. Quando Raimundo encontrou a sorte e a sorte encontrou Raimundo, nos foi dito, que não era o destino deles se encontrarem. Mas eles o fizeram. Talvez por teimosia, talvez por acaso, talvez até por outros motivos, mas assim o fizeram e construíram a sua história. Ela navegou nas possibilidades do Destino e se fez presente marcando uma trajetória. E dela foram retiradas muitas pegadas que ainda viriam a ser fragmentos históricos que seriam apenas os rastros de um destino. 

Nos foi contado também, que não era o destino da sorte encontrar Raimundo e vice e versa. O que sabemos foi que ambos se tornaram parte da história um do outro, com ou sem sorte. Eles andaram juntos e deixaram suas marcas. Haviam não apenas pegadas na areia, como também, marcas históricas que se tornaram, anos mais tarde, em rastros de destino. Seus rastros eram rastreáveis e por isso, de algum modo, alguém pôde juntar esses pedaços rasurados nas folhas de uma carta (de um conto, de um livro, de uma nota, de um bilhete ou de uma fábula), e com perplexidade foi revelada a história do bigode e da bonança. Já era o fim desde o princípio. Mas esta foi apenas a interpretação do intérprete do destino.

Acompanhamos, juntos, a sorte e o Raimundo. Todos, com dificuldades interpretativas, não poderíamos ler nas cartas tais rastros que o Destino têm. Não sabíamos e nem poderíamos saber o que nos desígnios se escondia. Não sabíamos e nem poderíamos saber deles pois não nos ensinaram a ler o acaso. Éramos apenas uma canção para embalar marujos. Não sabíamos, eu sei, que o Tempo é ainda pior.


Raimundo

 Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...


Raimundo...



Se eu fosse mais mundo,

seria justo

odiar o Amor

mais profundo? 


Por mais que fosse profano,

era, ainda, humano.

E, se fosse ainda mais insano,

me diga, Raimundo:

O que faria eu, nauseabundo,

Com todo o místico engano?


E aí,

Bigodudo?

O que eu faço com esses olhos 

que não perguntam nada?

Faço, ainda, uma rima? 

Procuro, ainda, alguma solução?


 Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...

Raimundo...

O que se esconde nas tuas preces?

Onde foram parar as tuas rimas?

As tuas oito faces, 

e as tuas pernas?


Esqueci o fio da meada.

Onde é que ela estava? 

Previu?

aquele gosto precoce,

um óbice,

da razão mais vil?

Deve ter voltado, 

espero,

À puta que lhe pariu.


 Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...

Raimundo...

Se eu fosse mais mundo,

seria justo

odiar o Amor

de modo mais profundo?

Foda-se,

ou,

que o valha...


Naquele fio de navalha, 

cega, 

que não acutila nada,

chora, justificando,

cortando o gerúndio

do teu pulmão,

tosquiando, 

a bosta

do meu coração.


Eu não devia te dizer...

Mas esse beck...


E, esse conhaque,

botam mais desejo

bem no fundo do rabo.


E, virado pra Lua, o gracejo.

E, esse maldito Diabo,

no comovido toque,

Não quer rima,

ou beijo.


E o que resta

é só,

além de lágrima,

sem festa, 

o muleque:

Aquele furor ilusório,

fulgurante, 

do

pechisbeque.


 Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...

Raimundo...

Me salva....


Me salva, Raimundo,

Me salva.



Desejo

Que o grandioso [que se foda] seja o guia




E que se foda-se


Porra


E que se foda



Porra

Ávida

 N'algum lugar do tempo algum anjo profetizava: Cuida! Cuida que a vida é ávida pelo retorno da própria vida na mesma vida em que tu vives. 

Fora essa uma época em que aprendia a ler e falar, mas não ouvir. 

Essa insanidade me perseguiu nos dias vindouros. Andava na rua e conheci alguém que bebia até gasolina, como eu. Tinha vômito na roupa, lágrimas nos olhos, lembranças solitárias, experiência sobre a vida, as coisas em geral e de coração vazio. Tinha vontade própria, conseguia andar por si, possuía a si e era ávida por viver. Não aceitava o lugar que a vida havia lhe imposto. Queria viver, queria amor, queria tanto.... O acolhimento oferecido fora incondicional até ficar de pé.

Mas a vida lhe tornou mais forte depois que partiu. Depois de adquirir tanto, mais do que imaginava.

Hoje, me encontro no fio da calçada comigo mesmo, sem esperança. Com o tempo, depois de aprender a ver, depois de aprender a ler, depois de aprender a falar, depois de tudo, ouvi. Mas só no fim, depois de tudo.

Hoje, e só hoje, percebi. A vida, na qual tentei ter paciência e ter controle sobre o que sentia, se fez implacável e retornou. Mas seu regresso se fez ao inverso. Colocou aquele que estava caído em pé e aquele que era a pé, no chão... Conversando com os ratos, comendo as migalhas dos pombos, refém do retorno, golfado por aquela mesma vida, ávida por regresso, no lugar do outro.

Assumi seu lugar e vi a vida se repetir.

Hoje, e só hoje, sôfrego e derrubado, sem admissão de rastejo,  gatinho naquela mesma calçada, arredio, como todos que estão no mesmo lugar, em lamento. Agora percebo, sempre tem alguém lá. Se a vida derruba quem fica em pé, ela também levanta quem anda de quatro. Se existe esperança? impossível determinar.

À vida, ao lamento, às inebriantes sensações, à experiência, ao amor, ao vento e ao vinho: Um estilhaçado corpo humano ora, por hora, pela alienação fiduciária do bem querer.

O homem na estrada

O homem na estrada não vê a si mesmo. Vê seu cavalo, vê seu caminho e não vê mais nada.

O homem em seu cavalo direciona seu olhar para a estrada e a estrada direciona seu caminho.

O homem na estrada vê a estrada, mas não vê o seu caminho.

Ele aprende a olhar a estrada e vê do que ela é feita. Vê no oceano amarelo partículas ínfimas que seu cavalo atropela. O homem na estrada não aprende que seu caminhar suja a si mesmo. Na estrada se pergunta como aquele pó tornou-se tão duro e como aquela dureza faz seu caminho. Mas não entende, ainda, porque o pó é leve, se a estrada é dura.

O homem segue, montado em seu cavalo, na estrada. Ele vê a estrada e não vê mais nada, nem mesmo seu caminho. O homem anda certo de sua ida sem nunca questionar sua volta. O homem na estrada, que não vê a si mesmo, pensa em como é reta aquela estrada sem saber onde vai acabar. Montado em seu cavalo já não vê só reta. Vê também a forma de seu cavalo que segue certo, na dureza da estrada, indo reto, onde quer que vá. O homem na estrada, montado em seu cavalo, ignorante, só vê a reta estrada sem nunca ver seu horizonte. O homem na estrada já sente não ter culpa sobre seu olhar.

O seu olhar é reto como a estrada e a estrada em linha reta, lhe dá mais retas para olhar. Nem cavalo nem homem tem mais disposição em enxergar. As linhas retas já são a sua estrada. O homem se mantém em seu olhar e em sua direção. O seu cavalo continua na estrada, ignorante de algum horizonte, e segue troteando o pó.

A estrada fez o homem dormir em seu cavalo que seguia na estrada. Quando acorda já não sabe mais o que é sonho ou realidade. Sonhara com uma estrada ignorante de si mesma e um cavalo solitário lhe atravessava. Já cansado de sua inexistência, empenha-se em ouvir a estrada. Mas já não há mais sons para ouvir. 

A estrada sedou a estrada, sedou o som da estrada e sedou o pó na estrada. Mas o homem em seu cavalo permanece na estrada sem ver seu caminhar. O pó, a estrada, o homem em seu cavalo e o horizonte vivem na mesma hora, porém, sem nunca se encontrar. Não há busca na estrada, tão pouco resposta. A estrada tem apenas linhas retas e desconhecimento. E o homem segue em frente, porque outro lado não há. Seu olhar e seu cavalo nunca saberão se já não houveram outros lados. Menos ainda, se a sua própria estrada já não é o próprio lado.



(10/2017)

Desértico, árido e profundo

 São oito horas da noite e o sol ainda não despencou do céu. Continua com seu trabalho infinito na órbita da terra, enquanto, de cabeça baixa, aquela criatura vê no canto da folha amarelada e carcomida a inscrição colorida do seu número de série. Ainda não anoiteceu, mas está quase. Ainda não comeu, mas já está quase.


Um berro seguido de um nervoso abrir de portas é o sinal de sair de casa e ir para a escola. Acordar todos os dias. Acordar e nascer de novo. Todos os malditos dias acordando e trocando de roupa; todos os malditos dias acordando e limpando aquela ramela amarela dos olhos, pois houve choro nas noites anteriores. E não sabemos quantas chances mais serão precisas até que ramelas amarelas sejam descontadas nas limpas orelhas de um travesseiro encardido que já não suporta mais o seu trabalho de todas as noites. Cada dia uma ramela diferente.


Ele vai à escola e quando volta já não é mais o mesmo. Percebe pelo reflexo da chave que no seu rosto há uma penumbra negra. Seu movimento é apressado e a sua expressão é severa. Se questiona porque na vida somos igual peças de xadrez.


Ele já não limpa mais as ramelas porque simplesmente desistiu de chorar.


_____________

Fim da transmissão.
(03/2017)

sem título

foda...

a porra toda quebrada ali dentro de mim. Ter que juntar os cacos e o que der pra levar, se leva. O que se vai, se vai...

E a saudade é, sozinha, um martelo derrubado na cabeça tombada de pensamentos infindáveis, plenos daquela água exprimida nos olhos, contraídos pelas pálpebras cheias de tristeza. Carrascos da boca, que não transportam mais nenhum som, harmonia ou paz. A única coisa que exprimem as sonoras cordas é a melodia das lamurias. Não, não são palavras. Elas sumiram. Como tudo mais. 

foda

a porra toda quebrada ali dentro de mim. Ter que juntar os cacos com as próprias mãos, frágeis, inaptas. E o que der pra levar, tu leva. O que se vai... se esvai... do braço amoroso ao abraço gentil, não há mais.  Saudade de ter, conter e contar. 

foda

Clockwork

 

Porto Alegre. Vigésimo primeiro dia do mês de Novembro. 1985. 15 horas e 27 minutos.  32 Graus.

            A cidade está muito agitada, mas age como se nada estivesse acontecendo. Os trilhos do trem fazem as estruturas do edifício tremer. O cheiro de combustível queimando no ar pelos automóveis e fabricas, é levado para dentro do apartamento com a força do vento que atravessa as cortinas e invade a sala como um intruso. A sala não é confortável. O ventilador esta quebrado. A Geladeira também (não há nada lá). Muitas pessoas no local. Calor.

Porto Alegre. Vigésimo dia do mês de Novembro. 1985. 11 horas e 23 minutos. 26 Graus.

            Fernanda como sempre, após almoçar naquele mesmo restaurante, que é localizado abaixo do seu prédio e na mesma hora como de costume, variando apenas no cardápio, voltara sua atenção ao noticiário da TV para saber a previsão do tempo. Já ele, não se importa com as informações que passam. Observa Fernanda com reprovação por não aceitar que se preocupe tanto com a previsão do tempo. Sua verdadeira indignação é por nunca concordar, no seu ponto de vista, que Fernanda viva, infalivelmente, controlando de tudo que é relativo àquilo que, ironicamente, não se pode controlar. O tempo.

Porto Alegre. Vigésimo dia do mês de Novembro. 1985. 21 horas e 12 minutos. 18 Graus. Atrito.

            A discussão acontece após Fernanda reclamar que ele é desleixado e perde muito tempo à toa. Falam em voz alta. Ele já esta cansado das mesmas ofensas e dessa vez resolve desabafar. Ela nunca havia percebido que estava em uma cela mental que cronometrava cada ato de sua vida. Inflexível, sem perda de tempo, começo e fim pré-estabelecidos por um tempo exato. Acabou de ver em si que não estava fazendo bem para ela e não tinha importância nenhuma saber quanto tempo levava para tomar banho, se haveria neblina ou cerração, cinco minutos para escovar os dentes, três minutos para os sapatos, doze para o cabelo ou dez segundos para acordar. Cada um deu seu argumento. Os visinhos escutavam atentos com o copo na parede.  Ele jura que faria algo com relação a isso. Ela vai para o quarto dizendo estar sem tempo para discussão. No outro dia todos fazem as mesmas coisas. Ou não.

Porto Alegre. Vigésimo primeiro dia do mês de Novembro. 1985. 15 horas e 03 minutos. 31 Graus.

            O telefone do escritório de contabilidade toca. Fernanda está. A polícia pede para que ela compareça no seu apartamento. Um cadáver precisa da sua identificação. Em pânico, pegou um táxi, opala, duas portas. A placa FTA8493, cor cáqui. A vinte e quatro minutos do local.

Porto Alegre. Dia. Mês. Ano. Hora. 32 Graus.

A luz do sol reveza com os flashes das câmeras a iluminação da sala. O cheiro do combustível agora invade o apartamento e colide nos uniformes suados pelo calor. Que por sua vez entoa o aroma do sangue na madeira. Ao canto está o sofá velho e, ao lado, a arma do crime. Ela chegou e ficou sem ar. O coração pulsava na altura da garganta quando viu ele e o que acabara de fazer com um martelo. Cumpriu com sua promessa. O relógio estava esquartejado e sem vida.

Foi preso em flagrante matando tempo.

A rima dor

 

O poder de mudar é fraco

O dom de acreditar é morto

O junco de sentir é pobre

"ele'  é o snob

A crença é salvação

 

Do horror,

Do mundo

Do espírito

No próprio sangue

Da coragem

 

 

 

Junta meu corpo de angústias

Jura promessas frias

Gélidas cores: Alegrias?

Nada!

 

Apenas sepulcro do poente.

Aquele Sol,

Que ostentaras o doente,

Inânime,

Não agrada.

 

Este é o jazigo do medo!

Tu! Morte soberana,

Voltas para teu relego

Pois, minh'alma, não afanas.

 

Acolhe este corpo aflito

Que sofre, pálido, eu Grito:

– Oh! Luar, se tão bonito,

Por que me acorrenta?

 

À noite, meu amor, é tão ingrata...

Teu calor mentiroso me maltrata

Portanto em ti, minha dor, que se alimenta.

Minha dor se alimenta em ti, portanto.

 

Minha dor, portanto, em ti que sê. 

Alimenta.

A rima, dor;

A rancorosa,

Abandona do meu peito.

Os detalhes de um Adeus

O velho observa a garota, que observa o rapaz, que observa a mulher, que observa o homem, que observa o dinheiro, que é notado pelo mendigo, que é observado pelo policial que não olha para o carro, que esta sendo assaltado pelo bandido que por um segundo olha para a mulher que cuida do seu filho, que brinca no parque, que olha para o prédio.

E no prédio, o rapaz observa a rua. E do parapeito ele olha a cidade. E os abutres observam o corpo. Que cai.

Lentamente. Que o tempo não perdoa e deixa passar. Os segundos, o minuto.

Que não escuta voz alguma, que o coração ainda vive a pulsar, que pulsa uma vez mais sem se preocupar.
Não tendo ninguém a observar, seu corpo...quando se estatela no chão.

O detalhe da Rosa caindo em meio ao sangue...deu um ar poético à tragédia que, no vácuo de um pensamento, se concretizou.

Lástima!
Meu eu-lírico, se matou.

Criando problemas semânticos.


¾      Professor, temos um problema
¾      Qual problema?
¾      O problema é: Temos um problema!
¾     Puxa! Não diga uma coisa dessas! Como aconteceu?
¾      Estávamos supervisionando a falta de problemas e quando nos demos conta... Catapimba!
¾     Meu deus! E o que faremos?
¾     Já estamos resolvendo o problema
¾     Mas, nosso sistema não havia sido criado para não dar problemas?
¾     Sim! Quero dizer, não...
¾     Como assim?
¾     Havíamos criado o sistema contra problemas que dessem. Mas não contra problemas que pudessem dar.
¾     Que problemão...
¾     Calma. Fique tranquilo. Os probleminhas e os problemões são protegidos.
¾     Que bom
¾     Um minuto, estão me mandando uma mensagem...
¾     À vontade, não quero gerar problemas.

¾     Ohhh, sim... Entendo. Entendo. Certo, avisarei o professor... Bom, acabam de me informar que o problema foi resolvido.
¾     Magnífico! Podemos continuar com a pesquisa
¾     Sim
¾     No final das contas até que foi engraçado, não acha?
¾     O senhor acha professor?
¾     Bom, se tudo analisarmos bem, o ocorrido não passou de um erro de interpretação do sistema. Pois veja... O problema aconteceu por um dado problema. E não tínhamos proteção contra problemas gerados. É engraçado. No fim das contas, tudo não passa de um erro de semântica.
¾     Um minuto professor... Estão me informando algo, e parece que houve novo problema
¾     Fique a vontade, não quero criar novos problemas.
¾     Não diga uma coisa dessas, professor!!!

Vou te escrever um Poema

Vou te escrever um poema
Tocante
Marcante
Quente

Falarei da minha tara
Meu vicio.
Tua pele
Teu sabor

Vou te fazer ficar louca. Por mim.
Por me ter
Me ter
Me ter

Tu sempre vai ler meu poema querendo
Minha mágica
Minha essência
Minha força

Vou estar no teu pensamento
Abrindo tuas pernas
Teu zíper.
Tua... poesia.

Meu poema vai te deixar sem ar
Sem métrica!
Sem rima!

SEM VERGONHA.
De nada...

Serás abusada!
Sugando meu poema todo
Pra dentro de ti

Vai tirar minha camisa...
De força.
O cogumelo que traz
Alucinação.

Ficarás resoluta.
Vou te chamar de puta!
E na minha cara
Acertarás o tapa convicto.

Topo. Topo tudo contigo.
Topo te levar à lua
Topo te embebedar
E ficar do teu lado

Segurando tua mão no frio
Agarrando forte o teu cabelo
Provando do teu ódio
E provando o teu veneno.

Vou te escrever um poema.

Vou mesmo, te escrever um poema.

O beco


San Francisco, CA – 1966.
Charlie. 8 anos. Bermuda pouco acima dos joelhos. Camisa listrada marrom. Punhos cerrados. O esquerdo na altura do peito próximo ao queixo, e o direito à frente, para marcar território. Há pouco havia jogado seu boné contra o chão.
Bob. 9 anos. Meias cinza, pouco abaixo do joelho. Suspensório e camisa listrada vermelha. Punhos serrados e cara de mau.
Charlie caminha lentamente em sentindo horário. De costas para a Mason Street e de frente para os fundos do “Fior D’Itália”. Sua baixa estatura e seu porte físico não estimulam muita confiança. Isabelle aguarda o resultado.
Bob Flecher era conhecido por liderar a gangue dos Garotos Gordos. Este sim era digno de aposta. O sorriso irônico no canto da boca incentivava os gritos da torcida.
“Os Gordos” como eram reconhecidos. Não que fossem gordos, mas eram eles que “controlavam” os lanches dos rapazes nos intervalos da escola. Havia também a gangue dos Pit-Stop Boys (ou P-SB). Uma brincadeira feita com os pit-stops dos garotos que iam ao banheiro nos intervalos, e que para ter acesso, precisavam pagar o pedágio. Os “P-SB” eram rivais dos “Striker’s”. Um bando de pequenos marginais que roubavam a grana dos rapazes. Sempre mudavam seus líderes. E um líder dos Striker’s nunca poderia fugir de um desafio. O problema é que muitos garotos disputavam a liderança do grupo. E por fim, os “Striker’s” eram os rivais dos “Gordos”.
Bob, quase nunca entrava em uma briga. Era um garoto esperto e tirava boas notas. Seu porte impunha respeito, e ele usava-o com sabedoria. Tanto que, quando foi eleito líder, nunca mais saiu. Afinal, boas notas, um titulo de respeito e imposição eram sinais de poder em qualquer lugar.
Já Charlie não cheirava. Tão pouco fedia. Mas se metia em muitos problemas... Muitos... Muitos... Muitos problemas, por ser namorado de Isabelle. Não há nada de surpresa nisso. As garotas só trazem problemas afinal. Uma suspensão aqui, uma acusação de furto ali, um castigo acolá... Quando não, um nariz quebrado. Não que elas fossem as responsáveis por tudo, mas quando se tem uma namorada, todos fazem de tudo para ver você se ferrar. Incluindo as amigas mais tímidas, que são capazes, inclusive, de tentar te beijar quando a sua garota não estiver olhando. É sinistro. Porém, não da para reclamar de tudo. Uma namorada é sinal de respeito também. Seus pais se gabam para os vizinhos e para os familiares. As tias da cantina lhe dão uma porção a mais... E por aí afora.
Poucas coisas mais divertidas haviam do que uma boa briga. Rolavam boas apostas. E quem conseguisse acompanhar a maioria delas, saberia bem em quem apostar. Apesar dos azarões que, hora ou outra, apareciam para estragar as estatísticas. E esta, sim senhor, foi uma boa briga.
Bob havia roubado o lanche de Isabelle, que reclamou. Sem pensar nas consequências (para Charlie), falou que se ele não devolvesse, chamaria seu NA-MO-RA-DO. Bob sorriu. Mas quando uma garota de 8 anos diz alguma coisa, é lei. Ainda que isso não mude muito até os 90 anos, continua sendo lei. E conforme prometido, Isabelle notificou seu amado do ocorrido e o intimou a devolver a honra que lhe haviam roubado. Charlie não entendia, naquela época, que o lanche roubado de uma garota era sua dignidade posta no lixo. E, assim, continuou sem entender pelo resto de sua vida. Mas não havia escolha: Ou desafiava Bob, ou perdia sua insígnia. Na visão de Isabelle, claro. Pois para Charlie, ele poderia não fazer nada e seguir sua vida normalmente ou fazer nada também que tudo continuaria no seu devido lugar. Sempre havia uma saída. Mas ele nem precisou se preocupar em escolher. Bob o segurou pelo colarinho e disse apenas: “Amanhã. Três horas. Atrás do restaurante italiano”. Já há algum tempo, Bob se sentia entediado com aquela vida fácil e sem emoção de roubar lanches, por isso precisava de algum divertimento de vez em quando. Normalmente, ele não faria o que fez. Era forte, líder dos Gordos, e respeitado. Não precisava fazer nada. Já Charlie... ... Bom... ... ... Coitado do Charlie.
Caminhando no sentido horário, Bob foi surpreendido com a atitude do adversário. Esquivou-se do soco, que voou solitário no ar. Ele sem dúvida conhecia seu segundo provérbio preferido: “Quem bate primeiro, ganha”.  Logo após o: “Bata antes, pergunte depois”. Culpa das noites em que assistia a filmes de ação escondido de seus pais.
Porém, nada aliava a tensão de Charlie. Pelo menos até levar o primeiro soco. Ou o segundo. Ou o terceiro... Enfim, chances de alivio de tensão não faltaram. Apesar de alguns socos bloqueados, Charlie acabou por absorver a grande maioria deles. Bob se divertia. A plateia adorava o espetáculo. Giulio, o garçom, também se divertia enquanto fumava para passar o tempo, antes de voltar a lavar a louça. Por fim, com o nariz já um tanto torto, um vermelhão no olho e um pouco de sangue no canto da boca, Charlie, tonto, quedou. Isabelle, que era a terceira garota mais linda da escola, (segundo pesquisa dos “Garotos Selvagens”, gangue aventureira que desbravava a cidade com suas bicicletas) deu as costas, furando o círculo que rodeava a briga e foi embora para casa.
Charlie então, se tornou o garoto mais poderoso da escola.
Naquela tarde, ao cair, Charlie cerrou seus dentes com raiva e levantou-se rispidamente. Dando tempo de Bob apenas iniciar o sorriso sarcástico enquanto ainda estava em pé. Foi açoitado com cinco socos consecutivos na cara e terminou nocauteado, e meio desacordado. Seu sorriso ficou torto no chão.
Naquele mesmo dia Charlie foi à casa de Isabelle para informar que estava tudo terminado. Pela primeira vez alguém conseguiu fazer Isabelle não dar a última palavra. Nas outras oportunidades, ela jogaria algum objeto na cara dos rapazes e saía porta adentro fingindo um choro forçado dizendo que estava tudo acabado. Muda, contudo, observou Charlie ir embora, iniciar o namoro com a garota número 1 do colégio, se tornar o líder dos Gordos, dos P-SB, dos Striker’s, dos Gárgulas, (que surgiram tempo depois) e, pouco a pouco, se tornar um cafajeste ordinário.
Anos mais tarde, Bob se formou na faculdade.
Charlie foi preso.

O flerte

O Flerte.

Me diga, o que aconteceria se eu dissesse que vou flertar, nesse instante, com você?
Você aceitaria o meu flerte?
E além disso, dissesse também que você já foi flertado por mim?
Você aceitaria o meu flerte?

Escute essa história do que quero debater: o estrangeiro político. Este é um ser que tem ganas pelo governo, apesar da sua própria falta de habilidade para manuseá-lo. Das sombras são arquitetados os seus planos, desígnios e determinações. Sem nunca propor, pois, quem propõe age; e quem age se expõe. O tempo gasto em debate, para que a compreensão do outro seja mais acessível e possível, é visto como uma falha ética e moral. Ou na pior das situações, uma falha política.

O estrangeiro político aguarda o momento para a tomada do poder; Uma aporia faz-se necessária. Não é difícil encontrar na história as investidas para tentar superar duas ideias contrárias, para o convívio humano ser possível. Uma diligência prestada, muitas vezes, nas vozes de quem busca se fechar dentro de si mesmo. A tentativa de dizer qual é o verdadeiro: a mente ou a alma?; A razão ou a emoção?; Particular ou essencial?; Bem ou Mal?; Matéria ou espírito?; o ovo ou a galinha?; O Grêmio ou o Inter?; etc... 
não surge como um objeto de sedução para nós, humanos. Esse exercício intelectual de busca por respostas não pode se perder na busca por qualquer resposta que dê alívio imediato. A solução dessas aporias não surge das mãos de algum Messias. Elas só aparecem porque, volta e meia, tem alguém que está cultivando o medo. E não pode ser alguém que esteja na luz... sendo visto e vigiado por todos. Ao contrário, é alguém que a todos controla, e na escuridão aprisiona.

O estrangeiro político cria o medo e dele se alimenta. Faz com que as coisas cheguem ao clímax das tenções, não deixando a ninguém mais, nada mais nada menos, do que duas opções apenas. Como sempre foi, como sempre é. Dado o radicalismo, e a impossibilidade de governar em qualquer um dos lados, aquele que dormia nas sombras aparece e profetiza: "o problema é a política e os políticos! tomemos nós, nas nossas mãos o poder, com fogo". E o ser profano se apresenta como alguém de fora, que não faz parte do cenário político. Que não usa dos dispositivos políticos. Que não está corrompido com a política, com o debate. Que está compromissado com um modo de simplificação das necessidades da população. Por ser um estrangeiro à política, autoriza a si mesmo, a falar do modo que lhe cabe ser mais adequado, transbordando das palavras para o modo de tratamento com as outras pessoas. Das quais, aprisionadas em sua caverna, sentem-se  agraciados pela benção da ordem daquele que diz a verdade. Um ser íntegro e sem deméritos públicos nenhum.

Temos a nossa frente um alguém que se diz alheio a tudo e a todos, portanto, o mais claro dos claros. O sentimento de reconforto sentido por uma mente agoniada, pelo tormento nas decisões daquilo que nos torna essencialmente humanos, se regojiza pelas atendidas preces feitas à outras entidades estrangeiras, inclusive, do sistema político humano; é compreensível. Não falaríamos mais de ignorância, mas sim de outra forma de desconhecimento, falaríamos de medo. Aquele, causado das sombras, por alguém.

O estrangeiro político surge de repente e diz que tem as armas necessárias para o governo: Não ser político. Assim foi. Assim tem sido. Permitir que a população de baixa renda pudesse voar de avião não configura um governo estrangeiro aos questionamentos da experiência humana, ao contrário, abre o debate.

A face mais triste que deixa o estrangeiro político é a ideia de governar de fora da política mas por meios políticos. Ações políticas. Discursos políticos. É a face na qual a lei permite a formação de novos exterminadores. Não mais os humanos com necessidades psicossociais, marginalizados historicamente, mas sim, os humanos que sempre buscaram homogeneizar os outros seres humanos. Com uma cor de pele verdadeira; um sexo verdadeiro; uma conta bancária que demonstre o valor do caráter "verdadeiro" de cada qual.

Mas, calme. Não passamos por nada mais do que havia me proposto. Não é mais um caso de concordância, ou não. Como disse no início, esse foi apenas um flerte.

A menina


A menina foi acusada de matar sua prima e ter relações, antes do casamento, com seu namorado.
Naquela árida cidade o veredicto já estava decidido pelo juiz e seus algozes advogados antes mesmo de começar. Um por sua função de decidir o que é certo e o que é errado, já o outro, que seria o advogado de defesa preferiu julgá-la por devoção ao seu pai (o próprio juiz). As pessoas daquela época foram castigadas pelo calor. Mas as mulheres sofriam muito mais. Poucas partes da pele delas poderiam ficar de fora, do contrario, eram julgadas como animais. As vestimentas destes eram simples mesmo.  Sandálias, sapatos, tecidos finos pouco coloridos e tudo mais. Foi lá onde tudo aconteceu.
Uma mulher que se atrevesse a sair pela rua desacompanhada poderia levar pedradas sem maiores motivos. Era essa a selvageria que rondava aquele lugar. Havia leis que as protegiam também, é claro, como por exemplo, cada vez que o homem quisesse ter relações sexuais com sua esposa, era garantido por lei que ele obtivesse o prazer imediato atendido pela sua “parceira”. Leis são feitas para serem cumpridas e as que não assim fizessem poderiam sofrer duras repreensões.
- Agora imagine o que aconteceu com aquela garota...
- O que houve?                  
- Foi acusada e culpada.
- Ah, mas isso estava claro
- E suponho que você já adivinhou a pena. Certo?
- Foi punida, sei lá, na cadeia...
- Hahaha
- Não?
- Pelo crime que cometeu, e por sinal não foi comprovado, foi julgada com 50 chibatadas ao ar livre ao meio dia.
- Nossa! Mas então, quer dizer que depois ela foi solta?
 - Sim. Foi solta para alguns dias depois ser posta na forca.
- Você disse: “Na Forca”?
- Sim, o que você esperava? A cadeia? Você é republicano... Estou certo?
- Não é questão de política, mas sim uma questão humana! Você não acha isso um absurdo?
-Talvez
- Como assim talvez?
- Se isso tivesse acontecido na época da idade média, não me surpreenderia. Mas como em 2009 as pessoas tornaram a suplantar seus desejos mais desumanos outra vez, talvez seja essa  uma brutalidade ou um presságio do que virá.
- Cada vez mais as pessoas me assustam.
- Cada vez mais as pessoas fazem perder em mim a minha própria humanidade.

http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3713859-EI308,00-Pressao+internacional+adia+enforcamento+de+condenada+no+Ira.html



Última entrada no word: 12/17/2014. 18:20.

Ilhas

Nos tornamos ilhas de nós mesmos.
Essa tecnologia nos deu uma falsa perspectiva de estarmos conectados globalmente. Equívoco alimentado pela publicização da imagem pois percebemos que não precisamos mais sair de casa para ver as pessoas.
Elas simplesmente surgem em nossas mãos.
Se o ser Supremo é Único, então, provavelmente, ele é muito solitário. Do mesmo modo aquele que acredita que a experiência do mundo está nas Palmas de suas mãos, provavelmente ele também é muito solitário.
Saímos de uma natureza conectada com as Sensações da natureza, humana inclusive, e fomos para a adoração do corpo e, então, para adoração do Virtual. Preenchendo e esvaziando a existência com significações.
A música esconde sua beleza complexa. Não mais no controle ordenado dos sentidos dos sons mas sim na habilidade de permitir a subjetivação dos silêncios. Será que não precisamos aprender a nos reconhecer nesse mundo novo, para preenchermos outra vez o mundo com significações que nos guiem para um novo esvaziamento?

Sodoma e Gomorra

Um escritor escreve. Assim como um assassino assassina. Às vezes frio. Às vezes morno. 
Algumas vezes quente. Ou louco.
Um escritor escreve com arma de fogo. 
E mata apenas a si mesmo.
Mata o instante. 
O invisível.

O poeta sente a dor da morte. A dor da dor. A dor do tempo.
O odor da vida, e dos sentimentos. 
E as mulheres dançam nos seus sonhos.

Mas as lágrimas, que às vezes querem passar pelos olhos, estão presas.
Cárcere privado. Do poeta.
Se pudessem sair, revelariam as barbáries, e torturas que elas sofrem lá dentro.
E o poeta administrativo nunca a deixa sair.

Aquele peso escondido sob sua pele, sob seus ombros, abate a letra. A escrita.
E mesmo assim. Mesmo com essa pobreza de espírito. Esse podre homem é rei.
Rei sob seu domínio. Escárnio subversivo. A coroa de ossos é dada ao cego.
Que vela sua alma na vala. Nos muros criados ao seu redor. 
“Sodoma e Gomorra” é seu poema.

In media Res


Porto Alegre. Vigésimo primeiro dia do mês de Novembro. 1985. 15 horas e 27 minutos.  32 Graus.

                A cidade esta muito agitada, mas age como se nada estivesse acontecendo. Os trilhos do trem fazem as estruturas edifico tremer. O cheiro de combustível queimando no ar pelos automóveis e fabricas, é levado para dentro do apartamento com a força do vento que atravessa as cortinas e invade a sala como um intruso. A sala não é confortável. O ventilador esta quebrado. A Geladeira também (não há nada lá). Muitas pessoas no local. Calor.

Porto Alegre. Vigésimo dia do mês de Novembro. 1985. 11 horas e 23 minutos. 26 Graus.

                Fernanda como sempre, após almoçar naquele mesmo restaurante, que é localizado abaixo do seu prédio e na mesma hora como de costume. variando apenas no cardápio, voltara sua atenção ao noticiário da TV para saber a previsão do tempo. Já ele, não se importa com as informações que passam. Observa Fernanda com reprovação por não aceitar que se preocupe tanto com a previsão do tempo. Sua verdadeira indignação é por nunca concordar, no seu ponto de vista, que Fernanda viva, infalivelmente, controlando de tudo que é relativo àquilo que, ironicamente, não se pode controlar. O tempo.

Porto Alegre. Vigésimo dia do mês de Novembro. 1985. 21 horas e 12 minutos. 16 Graus. Atrito.

                A discussão acontece após Fernanda reclamar que ele é desleixado e perde muito tempo à toa. Falam em voz alta. Ele já esta cansado das mesmas ofensas e dessa vez resolve desabafar. Ela nunca havia percebido que estava em uma cela mental que cronometrava cada ato de sua vida. Inflexível, sem perda de tempo, começo e fim pré-estabelecidos por um tempo exato. Acabou de ver em si que não estava fazendo bem para ela e não tinha importância nenhuma saber quanto tempo levava para tomar banho, se haveria neblina ou cerração, cinco minutos para escovar os dentes, três minutos para os sapatos, doze para o cabelo ou dez segundos para acordar. Cada um deu seu argumento. Os vizinhos escutavam atentos com o copo na parede.  Ele jura que faria algo com relação a isso. Ela vai para o quarto dizendo estar sem tempo para discussão. No outro dia. Todos fazem as mesmas coisas. Ou não.

Porto Alegre. Vigésimo primeiro dia do mês de Novembro. 1985. 15 horas e 03 minutos. 30 Graus.

                O telefone do escritório de contabilidade toca. Fernanda está. A polícia pede para que ela compareça no seu apartamento. Um cadáver precisa da sua identificação. Em pânico, pegou um táxi, opala, duas portas. A placa FTA8493, cor cáqui. A quarenta minutos do local.

Porto Alegre. Dia. Mês. Ano. Hora. 32 Graus.

A luz do sul reveza com os flashes das câmeras a iluminação da sala. O cheiro do combustível agora invade o apartamento e colide nos uniformes suados pelo calor. Que por sua vez entoa o aroma do sangue na madeira. Ao canto, o sofá velho e ao lado a arma do crime. Ela chegou e ficou sem ar. O coração pulsava na altura da garganta quando viu ele e o que acabara de fazer com um martelo. Cumpriu com sua promessa. O relógio estava esquartejado e sem vida. Foi preso em flagrante matando tempo.

Tem

 ... golfinhos no espaço :/